Estrada Adentro · Ensaio 1

O começo

por Mari

Hoje é o começo.

Eu quero algo, eu desesperadamente quero algo. Assim como a minha filha quer desesperadamente a minha presença quando está cansada, assustada ou desregulada. Só que a minha cabeça trabalha demais, e eu não sei para onde ir nem o que é esse algo. Com todo esse ruído interno, eu não consigo escutar. Talvez eu também esteja precisando desesperadamente de presença.

De vez em quando, essa presença fala comigo: “Escute.” “Mas como eu escuto com todo esse barulho?” “Ouça!” “Não consigo, está tudo muito alto!”

Escutar o quê? Tem tantas vozes e tantos caminhos aqui dentro que escutar não parece fazer diferença. Como escutar uma fanfarra em que cada integrante toca a sua própria música e segue numa direção diferente do resto do grupo?

Ainda assim, tento.

O trajeto de casa até o trabalho leva em média 1h40, na ida e na volta. Hoje, na volta, eu desligo o rádio: nada de YouTube, nada de podcast. Preciso de silêncio para tentar escutar. Para que, se e quando escutar, consiga ouvir.

E o silêncio, primeiro, me devolve o que eu já sabia. Esse caminho de trabalhar das 8h às 5h, em um trabalho que não me preenche, que me deixa longe da minha filha, do meu esposo e da minha casa, e que na maioria dos dias me deixa anestesiada da vida, não é o que eu quero fazer pelo resto da minha vida. Foi um dia, mas não mais. Esta foi a minha terceira transição de carreira, e eu acreditava sinceramente que tinha encontrado o meu propósito. Talvez eu o tenha encontrado, por alguns anos, e o tal do propósito tenha se mudado de novo. Ou talvez, o que eu suspeito ser a verdade, o propósito novamente tenha se fantasiado de pote de ouro no fim do arco-íris e, quando eu cheguei lá, só tinha a chuva.

A minha vida toda eu acreditei na espiritualidade. Aos 12 anos já estava lendo O Alquimista e Veronika Decide Morrer. Acredito em uma força maior: não é uma fé doutrinária ou de dogmas, é a sensação de que eu sou guiada. E acredito na lei da atração. Desde muito cedo acreditei que eu poderia traçar o meu destino, que eu tinha o poder de decisão.

Muito antes do lançamento do livro O Segredo, da Rhonda Byrne, eu já era uma máquina de materialização. Eu mentalizava aquilo que eu acreditava querer e, na grande maioria das vezes, acontecia.

Mas, depois de tanto materializar, eu olhei para trás. E grande parte do que estava ali tinha vindo de fora. Dentro, continuava vazio. Continua vazio. Um vazio ensurdecedor, que tenta ser preenchido com viagens, metas, livros, cursos, terapias, análises… sempre algo de fora transfigurado em um desejo genuíno. A minha questão nunca foi o materializar, mas o que materializar.

Talvez por materializar ter sido sempre tão natural para mim, eu tenha levado mais de 20 anos para chegar à pergunta que pode ser a mais relevante desses 41 anos de vida: de que serve a lei da atração, se a bússola materializadora está quebrada e o norte aponta para o sul? Aconteceu tantas vezes que eu parei de contar, mas eu conheço muito bem o processo: eu quero ir para as montanhas, olhar o horizonte de verde e rocha e presenciar o infinito. A minha bússola mostra que as montanhas ficam ao sul, e eu acredito. Traço a rota e caminho até o ponteiro indicar o ponto final. Ao chegar ao destino, encontro uma praia de areia branca, águas quentes e tranquilas. Que sorte a minha, que lugar maravilhoso! Mas o sentimento de estar voltando para casa não aparece. Alguma coisa está fora de compasso: aquele destino não é meu.

Pode levar anos de sombra fresca e banhos em águas transparentes para perceber o erro. Ou um piscar de olhos. Para mim, levou bastante tempo. Aos 41 anos, olho para trás e percebo que a minha bússola não estava funcionando. Não foi um insight, não foi um momento ahá. Foi lento, gradual, uma direção torta atrás da outra, até a voz começar a gritar: “Para de olhar a bússola, ela está quebrada!” Tempo demais? Talvez. Ou talvez o tempo que eu precisava.

Ao constatar a falha, perguntas surgem em fila: por que eu usei por tanto tempo uma bússola quebrada? Por que ela aponta para destinos maravilhosos que não soam verdadeiros? Ela quebrou no caminho ou já veio quebrada de fábrica? Dá para alinhá-la até que ela aponte o meu verdadeiro norte?

Existem pessoas que parecem vir ao mundo com essa bússola relativamente bem alinhada. Eu não sou uma delas. E, aos 41 anos, percebo que talvez o propósito da minha vida esteja justamente aí: não num ponto de chegada, mas num roteiro vivido devagar, com o objetivo de virar o norte da agulha para dentro.

É um clichê? É. Mas clichê só é clichê enquanto a estrada que leva até ele não foi percorrida. Depois disso, vira sabedoria. Aconteceu muitas vezes na maternidade. Está acontecendo com a minha vida.

Desço do carro, chego em casa. Silêncio. Minha filha na escola, o meu esposo no andar de cima, trabalhando. A mente começa a viajar. Abro o computador na tentativa de continuar trabalhando também, produzindo algo que eu nem sei direito se tem valor para alguém além das pessoas do meu trabalho. Ou mesmo para alguma delas. Sentada na mesa da cozinha, sozinha, com os grilos e os passarinhos cantando neste dia nublado, começo o diálogo interno: “Estou perdida, mais uma vez. Essa vida não parece minha e, ao mesmo tempo, nenhuma parece. Eu não quero mais tentar ir para lugar algum, porque tenho medo de chegar lá e descobrir que, de novo, a estrada estava na direção errada. Eu não sei o caminho. Você sabe mais do que eu. Me ajude.”

Os grilos continuam cantando. As maritacas, para entrar no coro, começam a gritar. Nada muito romântico, assim como não é nada romântica a mensagem que surge de dentro: por que você não pergunta para a IA?

Resposta estranha a um pedido enviado à criação. Mas tudo bem, eu sigo e pergunto. Crio um prompt contando um pouco da minha trajetória e pedindo que a IA monte um plano para me ajudar a descobrir o meu propósito. Não dá certo, claro. Perguntas óbvias surgem (“o que você mais gosta de fazer no seu tempo livre?” Sério?!), as quais a minha mente responde comendo biscoitos e dando risada de tudo aquilo: mestra como é, leva tudo para o lado que aceita, conhece e gosta, tentando fazer eu acreditar novamente num caminho que não é o meu. Eu tenho que ser mais esperta que ela. Ajusto o prompt: eu quero aquelas perguntas que a gente não faz ideia de por que estão sendo feitas, que falam das crateras da lua enquanto estão revelando algum trauma da infância.

Quando o resultado chega, algumas coisas interessantes aparecem. A primeira frase diz: “Seu dom é enxergar o que está escondido.” Um pouco mais abaixo: “Você quer ser vista pela obra, e não no palco.” Opa, a coisa começa a ficar boa e a fazer sentido.

Mas também conflituosa, porque em algum lugar desse propósito está a questão de falar, me expor e me abrir para o mundo. Se alinhar a bússola significa ouvir a voz interna que diz que eu preciso começar esse projeto, e que uma parte fundamental dele é documentar essa jornada para outras pessoas, então aparece um dos motivos de eu não querer ouvi-la: eu não me sinto apta para a tarefa.

Eu tenho mais perguntas do que respostas. Tenho mais vontade do que conhecimento. Tenho mais desejo de criar do que disciplina para isso. E, pior de tudo, eu não quero ser vista.

Escrever sobre a minha jornada não é novidade. Tenho diários desde os 12 anos, sempre escrevi, e tenho impulsos que vêm em ondas fortes, em que sinto a necessidade de colocar para fora o que sei. Mas desde sempre guardo tudo a sete chaves. Esse impulso, de tempos em tempos, rompe a barreira da minha inadequação e quer sair. Mas eu não quero escutar. Quero ficar quietinha, que ninguém me note, que, de preferência, nem percebam que eu existo. Mas eu quero isso mesmo? Se quero, por que, de tempos em tempos, o oposto vem com tanta força que me faz voltar ao caminho que eu rejeitei?

Perguntas sem respostas.

Mas uma lição eu não nego: o preço de não escutar é o vazio, e uma vida em que a gente não se reconhece. Até quando o medo de ser vista vai ser maior do que a dor de viver uma vida que não é minha?

Eu não sei. E não quero esperar para descobrir. Por isso, vou tentar ouvir.

E dessa escuta nasce este projeto: Estrada Adentro.

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Ilustração da Mari

Eu sou a Mari. Escrevo sobre os roteiros de vida que a gente não escolheu, e sobre o trabalho interno de sair deles.

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